Os jogos de tabuleiro estão de volta!

Mercado nacional vê volta dos tradicionais jogos de tabuleiro às lojas e crescimento exponencial nas vendas nos últimos anos.

Se você é antenado nas novidades do mundo nerd já deve ter constatado um fato: os jogos de tabuleiro voltaram! O mercado está cheio deles, livrarias e lojas de videogames agora tem dividido seu espaço com eles, youtubers falam sobre eles, há cada vez mais canais, páginas e blogs de gente falando sobre a “nova” moda do momento. Agora existem bares específicos para esse tipo de público e encontros a nível internacional (e também no seu bairro) só para jogar e conhecer mais jogos. E, se você ainda não viu, até a Riot Games, badalada produtora do jogo League of Legends, irá se aventurar pelo mundo dos board games. Mas pera aí, será que eles voltaram mesmo? Ou será que eles sempre estiveram aí e a gente que não percebeu?

Tenho certeza que em algum momento da sua infância você teve contato com algum jogo de tabuleiro: desde os clássicos Ludo, Resta Um, Gamão, Xadrez e Damas, passando pelos consagrados War, Detetive, Banco Imobiliário e chegando também aos populares Perfil, Imagem & Ação e Quest. Numa tarde de chuva ou naquela visita na casa dos primos, os jogos foram muito presentes na vida da geração dos anos 1970 e 80, mas perderam força com a chegada dos consoles e o boom dos jogos digitais. Mas nem por isso eles deixaram de ser um importante mercado. Não é que os jogos tenham parado de ser produzidos, mas sua popularidade caiu muito devido aos altos custos de produção e, principalmente no Brasil, se ouviu muito pouco sobre novidades nesse gênero de entretenimento. Lá fora, principalmente nos EUA e Europa, o mercado continuou funcionando, mas sem tanto barulho quanto a indústria dos consoles.

Um enorme universo cheio de variedades temáticas nos jogos de tabuleiro modernos.

O fato é que de uns 10 anos pra cá, o que tem se visto é uma inversão do papel do jogo na vida dos jogadores: se antes era o refúgio num momento de falta de opção de lazer, ou coisa para as crianças se distraírem, agora a jogatina é a atração principal da noite. Isso se deve, na maior parte, ao lançamento de novos jogos, com temas mais envolventes e complexos, mecânicas mais elaboradas e maior fator de estratégia: os chamados jogos de tabuleiro modernos. Esses jogos tem atraído cada vez mais adultos para as mesas justamente por terem temas mais interessantes e serem ambientados em universos comuns em livros ou em momentos históricos, temas da ficção científica ou da fantasia medieval e ainda universos inspirados em séries de TV ou cinema. Você pode ser um pirata enterrando tesouros, um funcionário de uma fábrica de automóveis em busca de promoção, um fazendeiro tentando sustentar sua família, uma equipe de cientistas em busca de cura para uma pandemia, um elfo em meio à um apocalipse zumbi ou ainda um personagem dos universos Star Trek e Star Wars em alguma das tramas envolvendo as franquias.

Por outro lado, esse crescimento também veio da necessidade de se encontrar soluções de entretenimento “offline”, desconectado, que se possa realizar em grupo ao redor de uma mesa, comendo e bebendo, se relacionando mais diretamente com amigos, deixando de lado a necessidade de estar num computador, console ou celular. O que mais tenho escutado durante as noites de jogos são amigos que se dizem satisfeitos e mais leves ao desligar o celular por algumas horas e partilhar experiências e diversão na mesa de jogo. Até mesmo empresas têm buscado nos jogos uma maneira de criar ambientes descontraídos e relaxantes para os funcionários, e ainda assim os manter ativos mentalmente, sem a carga de estresse do dia-a-dia. As chamadas atividades lúdicas têm sido muito difundidas para esse tipo de grupos, e também para a educação de crianças e adolescentes.

Merchants & Marauders — Um jogo sobre mercantilismo e pirataria nos mares do Caribe.

O grande divisor de águas foi, para muitos amantes do gênero, Os Colonizadores de Catan. Lançado em 1995 na Alemanha, o jogo apresentava aspectos muito diferentes dos tradicionais jogos americanos que envolviam muito mais sorte em cartas e rolagem de dados. Em Catan havia muito mais planejamento das ações, gerenciamento e troca de recursos, além de uma disputa em que não só você poderia ser beneficiado, mas uma ação sua poderia também ser interessante para o adversário. O fator sorte ainda estava ali, mas era bem menor. A pegada era tão diferente dos wargames americanos que toda uma geração de jogos da escola alemã chegaram na América, sendo chamados de german-style board games. Nesses jogos havia sempre alguma coisa relacionada a gestão de recursos ou uma sequência programada de ações que dependia da decisão do jogador para acontecer, e muito menos dependência de um conjunto de dados ou de cartas sacadas para dar certo. Mais tarde, esse estilo também passou a dominar os jogos criados em outros países europeus, definindo o estilo como eurogames, em contraposição aos american games (pejorativamente chamados de ameritrashes). Hoje, os estilos estão tão misturados entre si que essa definição já não comporta mais a enorme gama de estilos e mecânicas de jogos existentes.

E NO BRASIL?

Por aqui, a chegada pra valer dos jogos modernos foi com a criação da Galápagos Jogos. Não que Grow, Hasbro e Estrela não estivessem apostando em títulos consagrados nos Estados Unidos (aqueles que citei lá no começo), mas foi a Galápagos que resolveu revolucionar o mercado e dar abertura aos jogos com o estilo europeu. Criada em 2009, a empresa começou lançando jogos menores como Mafia, Robin Hood e Horse Fever, mas ganhou mesmo espaço com o lançamento de Zombicide e Ticket to Ride, dois jogos premiados pela crítica e amados pelo público (curiosamente, um euro e um american game). A Grow demorou para embalar na onda, tendo, de início, só adaptado Catan para o português, e só muito depois vindo com o jogo Puerto Rico, até então considerado uns dos melhores pelos usuários do site BoardGameGeek (uma comunidade de jogadores bastante popular e referencial para muitas informações e lançamentos). O jogo chegou e mostrou para a empresa que era possível investir mais pesado nesse nicho de mercado.

Cuide da sua fazenda e alimente sua família em Agricola.

Quem se aproveitou foi a editora Devir, até então responsável por traduzir diversos RPGs e também por trazer ao Brasil o popular jogo de cartas Magic: The Gathering. Sem brincar em serviço, a empresa paulistana investiu pesado e trouxe ao mercado nacional jogos como Agricola e Stone Age, ambos também entre os mais populares e conceituados no ranking do BGG. Depois seguiu trazendo jogos populares e de boa aceitação do público gamer, variando seu material entre jogos mais leves, os chamados family games e party games, que são jogos para jogadores mais casuais ou para se jogar com a família num churrasco. A Devir foi seguida pela Conclave Editora, que também veio do universo dos RPGs, assim como pela Pensamento Coletivo. Mais recentemente, tem havido uma crescente no surgimento de editoras menores e o mercado brasileiro ganhou não só força, mas notoriedade, sendo destaque na mídia nacional e chamando cada vez mais atenção para o hobby.

TEM JOGO PRA TODO MUNDO

Os temas são tão variados quanto os estilos e mecânicas existentes. Há quem prefira jogos com mais interação, que exigem mais que os jogadores conversem entre si ou que você possa atacar diretamente o coleguinha. Outros preferem jogos em que cada um faz o seu, planeja suas ações sem que o outro possa interferir nelas, e ganha que fizer o melhor mecanismo de pontos. Há ainda os jogos cooperativos, em que todos jogam e discutem suas ações juntos e jogam contra o tabuleiro. Nesses, ou todos perdem ou todos ganham (em alguns casos, na verdade, existe a possibilidade de haver um traidor que tentar vencer sozinho o jogo). Há jogos mais leves, de menor complexidade, e mais rápidos. E há jogos mais pesados, mais complexos, mais demorados e que podem chegar a levar metade de um dia para serem terminados. Em outro texto pretendo falar um pouco mais sobre essa questão de mecânicas dos jogos.

“Mas, por onde eu começo?” — pergunta o leitor interessado

Não há uma ordem certa para se começar, mas muitos sugerem que se tenha primeiro um contato com os gateway games, ou jogos de entrada. Em geral, são jogos de regras mais simples e visual agradável, que costumam chamar mais a atenção, mas são igualmente divertidos. Entre eles, o mais popular é Ticket to Ride, um jogo onde você controla uma companhia ferroviária e tem que traçar as melhores e maiores rotas pelo tabuleiro, ganhando pontos conforme o nível de dificuldade da sua rota, além de completar objetivos específicos que exigem que você ligue dois pontos no mapa. A franquia é tão popular que já rendeu diversas expansões e alguns novos jogos que incluem mapas dos Estados Unidos, Europa, Ásia, África, países escandinavos, Reino Unido, Pensilvânia, entre outros. O título mais recente, Ticket to Ride: Rails & Sails, irá permitir, pela primeira vez, que se crie rotas marítimas, usando barcos, além dos trens.

Ticket to Ride: miniaturas de trens coloridas num jogo bem divertido e com muita interação.

Outros jogos muito bons e fáceis para se começar são Catan e Carcassonne, dois dos maiores sucessos de vendas do universo dos tabuleiros. O primeiro, já citado no texto, te coloca como um colonizador na época do Renascimento, tendo que formar uma vila e crescendo seu domínio na nova terra. À medida em que coleta recursos e os troca por construções ou estradas, você soma pontos e o primeiro a completar 10, vence o jogo. Já Carcassonne te dá o papel de um lorde francês que precisa aumentar seus domínios ao longo de campos, castelos e estradas. Você controla diversos camponeses que precisam ser estrategicamente posicionados para te dar pontos, enquanto descobre novos terrenos que são peças vindas de um saco. Aqui vence quem somar mais pontos. Carcassonne é um jogo tão popular que possui mais de 40 expansões, cada uma adicionando alguma nova opção de jogo ou diferentes tipos de camponeses ou ainda terrenos que te dão ações especiais.

Estima-se que Catan já tenha vendido mais de 25 milhões de cópias pelo mundo.

Bastante famoso no Brasil, e também um grande colecionador de expansões, Zombicide é um jogo com mecânicas bem diferentes que une os jogadores em uma missão de sobrevivência em meio à um apocalipse zumbi. O jogo é cooperativo e depende da habilidade de cada personagem para que a missão seja bem-sucedida. Além de ter um tema bem popular hoje, o jogo possui miniaturas maravilhosas, muito bem feitas e que deixam o jogo bastante imersivo. Recentemente a quarta versão do jogo foi lançada no Brasil, levando os jogadores à um apocalipse zumbi durante a idade média em meio à peste negra.

Zombicide: Black Plague — Um dungeon crawler com zumbis para os jogadores que vieram do RPG.

Um dos meus favoritos, 7 Wonders é um jogo de cartas (que também se incluem na categoria dos jogos de tabuleiro) em que cada jogador deve produzir recursos para construir uma das 7 maravilhas do mundo antigo, além de desenvolver a civilização em torno dela com estruturas, tecnologias e poderio militar. O jogo é rápido e faz com que todos joguem ao mesmo tempo, tornando o jogo estratégico sobre o que jogar e o que manter na mão, mas também exige bastante atenção sobre o que seus adversários estão construindo e se eles têm mais chance de vitória que você.

Já se você prefere começar com um jogo em que mais pessoas possam participar e que não exija uma explicação de regras mais longa, você pode colocar na mesa jogos mais próximos do que seus amigos talvez estejam acostumados a jogar: os party games. Mas ao invés de Perfil, você pode apresentá-los à Codenames, um jogo de dedução de palavras que divide o grupo em duas agências de espionagem distintas, lançado recentemente no Brasil. Ou ainda pode levar para mesa o belíssimo Dixit, um jogo onde cada jogador tem nas mãos um grupo de cartas com ilustrações diversas sem nenhuma palavra ou texto. A cada rodada, um jogador escolhe uma carta de sua mão e deve usar a criatividade para dar dica sobre sua carta usando um nome, frase, cantarolando uma música e etc. Então os demais jogadores usam as cartas que tem em suas mãos para tentar encaixar na dica dada pelo primeiro, misturando todas as cartas e revelando todas na mesa. Os jogadores então devem descobrir qual era a carta do jogador da vez, votando, e ganha pontos quem acertar a carta.

E O QUE MAIS?

Calma! Aqui você já tem bastante informação para começar seu próprio grupo de jogos. Você provavelmente vai ter que investir uma boa quantia para ter o seu próprio acervo, já que cada jogo custa hoje em torno de 100 a 300 reais (alguns chegam a custar 400). Mas pense bem: você não estará comprando somente um jogo que irá durar algumas hora até você zerar, mas diversas horas de diversão com amigos diferentes em momentos diferentes com um altíssimo fator de rejogabilidade (quantas vezes você pode jogar o mesmo jogo sem que ele se torne repetitivo). Cada jogo te permite ter uma experiência diferente, com uma determinada quantidade de jogadores (alguns são feitos exclusivamente para dois jogadores, outros, como os party games te permitem ir até 10, 20).

Com o tempo, alguns podem querer conhecer outros jogos, ter mais desafios e tentar jogar os mais robustos e de maior complexidade. O mercado está repleto de opções, para todos os gostos. Você pode se inteirar mais através de sites especializados, buscar fóruns e mais informações na Internet. Vou deixar abaixo alguns desses lugares, mas também estou à disposição para qualquer dúvida que você posas ter a respeito. A ideia desse texto é apenas iniciar o assunto por aqui.

Twilight Imperium — Um daqueles jogos que se demora várias horas para terminar.

FONTE: MEDIUM

 
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